Na sequência de um artigo anterior relativo à Síndrome dos Ovários Poliquísticos, neste artigo daremos continuidade à temática apresentando a abordagem da Medicina Chinesa nesta patologia, os seus benefícios e as suas limitações.

A Medicina Chinesa na Saúde da Mulher com SOP

A Medicina Tradicional Chinesa é utilizada há centenas de anos para o tratamento de diversos problemas da saúde feminina, incluindo o Síndrome do Ovário Poliquistico (SOP) e a sua sintomatologia.

Para o tratamento do SOP, a Medicina Chinesa recorre a duas das suas especialidades mais reconhecidas e estudadas: a acupuntura e a fitoterapia, naturalmente não deixando de parte as vertentes de aconselhamento dietético e as recomendações de mudanças no estilo de vida, que devem mediar qualquer processo de recuperação da saúde e de que falaremos num artigo posterior.

O efeito neurovegetativo que se procura obter da utilização da acupuntura nestes casos resulta da utilização de pontos específicos localizados em meridianos identificados pela Medicina Chinesa, e ocorre pela modulação do sistema nervoso central e autónomo, com o intuito de promover a regulação da função metabólica e endócrina nestas pacientes.

A literatura existente denota que a realização de tratamentos de acupuntura baseados num rigoroso diagnóstico diferencial, poderá levar a uma diminuição das hormonas androgénias e Anti-Mulleriana, diminuição do acne, e aumento da frequência menstrual (com regulação do ciclo) neste caso com o efeito a ser obtido ao final de 16 semanas de tratamento.

Por outro lado, e quando falamos de uma das mais marcante consequências do SOP para as mulheres – a infertilidade -, importa mencionar que a acupuntura, quando realizada em apoio a tratamentos de FIV (Fertilização In-Vitro) ou ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozóides), parece melhorar a probabilidade de uma gravidez bem sucedida, diminuindo concomitantemente o risco de ocorrência de  hiperestimulação ovárica em pacientes com Síndrome do Ovário Poliquístico.

O Síndrome Energético na Medicina Chinesa

Não existe uma conversão directa das interpretações e do diagnóstico da Medicina Chinesa para a Medicina Ocidental. Ambas procuram a resolução do problema de saúde e a defesa do paciente, mas a linguagem utilizada para esse fim não é a mesma, embora na maioria dos casos surjam muitos paralelismos. Os parágrafos que se seguem podem por isso ser estranhos para quem não conhece a “linguagem” desta terapia não convencional – deixamos o esclarecimento para os mais curiosos.

Muitos autores de Medicina Chinesa atribuem genericamente a origem do desenvolvimento da SOP a uma deficiência de Yin/Yang do Rim e ao acúmulo de Humidade Fleuma. As explicações sugerem que na presença de um yang do Rim deficiente por um longo período de tempo, este pode ser incapaz de transformar e /ou transportar fluidos do baixo ventre, que assim se podem acumular gerando o que em Medicina Chinesa se identifica como humidade /muco. É esta humidade no baixo ventre e em particular nos ovários, que pode vir a desencadear posteriormente o aparecimento de quistos de diversas tipologias.

No âmbito da teoria da Medicina Chinesa, os diversos sintomas associados à SOP podem ser agrupados em várias síndromes energéticas:

Quando se identifica uma deficiência de yang do Rim este comprometimento traduz-se geralmente no envolvimento da Síndrome de humidade-fleuma.

Na literatura, esta paciente poderá apresentar excesso de peso e menstruações irregulares com paragem de ovulação. Por outro lado, quando há deficiência de yin do Rim, esta pode ser congénita, advir de uma deficiência de Qi e sangue, ou de estagnação de Qi e sangue. Nestas circunstâncias, em grande parte dos casos a paciente vai ser magra, agitada, apresentando ovulações irregulares e níveis elevados de testosterona.

Em estudos referidos na literatura, os valores das hormonas LH e FSH aparecem de igual modo correlacionados com as síndromes da Medicina Chinesa. Neste âmbito valores de LH e FSH superiores a 2,5 indicam deficiência de Yang do Rim com acumulo de humidade-fleuma. Inversamente, quando os valores de LH e FSH são inferiores a 2, podem indicar deficiência de yin do RIm.

Outra das possibilidades para o desenvolvimento de SOP descritas por diversos autores, suporta a sua origem numa Síndrome de Humidade-Fleuma.

Tal ocorre quando a ovulação não ocorre porque o metabolismo é afetado pela fleuma resultante do acumulo de humidade, frequentemente associado relacionado ao excesso de peso.

As pacientes que têm SOP com origem nesta Síndrome, podem apresentar adicionalmente:  menstruações escassas, atrasadas ou ausentes, dificuldade em engravidar, corrimento vaginal intenso, sensação de peso, sensação de cabeça pesada, opressão torácica, nauseas, membros fracos, expectoração, fezes moles, obesidade, aumento de pilosidade.

Nestas pacientes, a SOP pode ser acompanhada de: menstruação atrasada, escassa e dolorosa, dor abdominal que piora com pressão, coágulos de sangue na menstruação, infertilidade, depressão, distensão do peito e hipocôndrios.

As pacientes com SOP de origem nesta síndrome podem apresentar sintomas de debilidade e fraqueza nos membros, respiração curta, palidez na face, sensação de peso no abdomen, distensão gástrica. É normal nesta síndrome que o útero destas pacientes possa descair da sua posição normal.

Em virtude desta diferenciação de Síndromes que ocorre em cada patologia, os terapeutas de Medicina Chinesa aprendem desde cedo que que “não há doenças, há doentes”. Quer isto dizer que dois pacientes, ainda que com a mesma patologia, terão “direito” a uma terapêutica distinta, individualizada e ajustada sua situação particular.

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Fitoterapia em Medicina Chinesa na abordagem ao SOP

Recorrendo à fitoterapia (utilização de preparações farmacológicas à base de plantas), na Medicina Chinesa podem ser utilizadas formulações simples (em que uma planta é utilizada de forma unitária) e/ou complexas (em que se conjugam várias plantas com o objectivo de conseguir um efeito sinérgico combinado).

A maioria dos estudos científicos realizados em fórmulas simples fornecem algumas indicações relativamente às espécies de plantas que podem ser úteis em âmbito de consulta, das quais enumeramos algumas:

  • Vitex agnus castus
    Quando utilizada durante 3 meses, parece diminuir a produção de prolactina, melhorar a regularidade menstrual e a fertilidade, aumentando a fase lutea (segunda fase do ciclo menstrual) de 3,4 dias para 10,5 dias;
  • Cimicifuga racemosa
    Diminui a produção de LH, e melhora a ação da medicação indutora de ovulação, de 20% para 43%, quando usa em conjunto;
  • Tribulus terrestris
    Melhora a taxa de ovulação, aumentando os níveis de FSH, mesmo quando comparada com indutores de ovulação;
  • Glycyrrhiza spp (Alcaçuz)
    Baixa dos níveis de hormonas andróginas, como a testosterona, aumentando a produção de estradiol;

No geral, estas plantas apresentam efeitos que se manifestam ao nível da expressão da glândula pituitária, baixando os valores de prolactina e LH (hormona luteínica), e aumentando a produção de FSH (homona foliculo estimulante).

Na sequência de um diagnóstico de Medicina Chinesa, é assim habitual recorrer à  prescrição de fitoterapia para o tratamento das síndromes energéticas causais da SOP, usando para tal fórmulas complexas que têm vindo a provar ser eficazes na evolução positiva dos sintomas e sinais associados à Síndrome do Ovário Poliquístico.

A causa e a envolvência da Síndrome do Ovário Poliquistico será distinta de paciente para paciente. A origem da patologia e os sintomas que acompanham a SOP não são iguais para todas as pacientes e por isso a prescrição fitoterapêutica será necessariamente ajustada ao diagnóstico diferencial obtido para cada indivíduo, (da mesma forma que as preparações farmacêuticas manipuladas apresentam uma formulação única de acordo com o diagnóstico identificado pelo médico e a indicação terapêutica).

Aliás, este principio aplica-se igualmente na escolha de pontos de acupuntura ou no aconselhamento do regime dietético a adoptar pelo paciente, sendo válido quer para a Síndrome do Ovário Poliquístico quer para qualquer outra patologia.

Artigo escrito e revisto para a Clínica Médica do Porto por Tatiana Calvão Sousa, terapeuta de Medicina Chinesa e Acupuntura e especialista em Saúde Feminina.

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