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Os primeiros anos da nossa vida determinam em grande medida o adulto em que nos tornaremos. Receber os estímulos adequados e ajustados durante enquanto bebés é fundamental para o nosso desenvolvimento global.

O presente artigo parte deste pressuposto, fazendo uma incursão nas atitudes e comportamentos que podemos e devemos modificar na forma como acompanhamos e apoiamos o crescimento dos nossos bebés, como forma de lhes garantir o melhor futuro possível.

O que levamos dos primeiros meses e anos da nossa existência para o resto das nossas vidas?

Há um conjunto de características individuais que se começam a desenhar mesmo antes do nascimento e que vão sendo moldadas à medida que vamos crescendo. Enumeramos apenas algumas para lhe dar uma panorâmica geral da importância desta fase no desenvolvimento humano:

Características individuais cujo desenvolvimento tem início na infância

  • a forma como nos movemos;
  • o nosso equilíbrio;
  • a destreza para coser um botão (habilidade manual);
  • a capacidade para manter o foco e a atenção;
  • a facilidade para aprender novas matérias;
  • o desenvolvimento da nossa anca ou da nossa coluna;
  • a resiliência com que o nosso organismo enfrenta o stress e a ansiedade;
  • a capacidade empática para estabelecemos relações com os outros!

Mas para que esta base tenha uma estrutura sólida, é essencial perceber não só quais os estímulos adequados, mas também a fase ideal em que cada um desses estímulos devem entrar em cena no desenvolvimento dos nossos bebés. Posto assim, é fácil perceber que o acompanhamento que recebemos dos nossos cuidadores e os desafios que percepcionamos do ambiente que nos rodeia serão determinantes fundamentais para o nosso desenvolvimento.

Se perguntarmos aos nossos pais como fomos criados, as diferenças o antigamente e a actualidade vão saltar à vista, ainda que em muitos dos casos não tenha passado assim tanto tempo…

No seu livro Bésame Mucho, o Pediatra Carlos González defende que a maneira de criar os filhos no passado era determinada por critérios de seleção natural, noção que de acordo com o mesmo autor tem vindo a ser substituída por critérios de seleção cultural. Este médico refere-se à constatação de que no passado, a maneira de criar os filhos era regida ou muito influenciada pela Natureza (ver explicação abaixo). Hoje em dia, porém, a forma de criar uma criança é extremamente influenciada pelo normativo, pelas crenças e pelos estímulos que recebe da sociedade em seu redor, como veremos nos parágrafos seguintes.

Nota sobre a conotação dada aos termos Selecção Natural e Selecção Cultural:

Há milhões de anos, antes de entrar em cena o que o pediatra chama de seleção cultural, o comportamento das mães era quase exclusivamente instintivo e nesse sentido, grandemente condicionado pelos genes. Atualmente e de acordo com o autor, tal já não acontece. Vivemos em ambientes artificiais, no meio de grupos (de outros humanos) em sociedades organizadas com normas também elas artificiais (este artificial não significa bom ou mau, pretende apenas elucidar a distância para a noção de ambiente natural, onde a intervenção humana é diminuta ou está ausente). Isto faz com que muitas mães e pais tenham perdido parcialmente essa conexão com os seus instintos inatos e imperativos biológicos, duvidando constantemente de aspetos básicos na maneira de criar os seus filhos. Para referir um exemplo mais objectivo: talvez o instinto inato de uma mãe quando um bebé chora seja o de dar colo, mas talvez esta não o faça, duvidando deste seu instinto porque culturalmente leu algures que tal comportamento poderá não ser o mais indicado nesta circunstância… – como este, haverá muitos outros exemplos onde a selecção cultural se sobrepõe à selecção natural).

Como é possível então que a nossa forma de criar se tenha alterado tanto se os nossos bebés nascem praticamente com a mesma carga genética que há 100.000 anos?

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O Contributo e a Qualidade dos Estímulos na Sociedade (dita) Moderna

É incontestável que vivemos na era da informação e da desinformação. Neste contexto, não é fácil para os nossos bebés conectarem-se com os seus instintos.

Não é fácil porquanto os seus cuidadores, sejam as mães, os pais, os avós ou os professores, enquanto decisores, são bombardeados de forma ininterrupta com informação (frequentemente desconexa) acerca do que pode ou não, fazer bem (ou mal) ao seu desenvolvimento. Não é fácil porque somos bombardeados com informação acerca de uma panóplia diversa de objectos, artigos e engenhocas, com a promessa de que estes servem fielmente o propósito de estimular de forma benéfica os nossos bebés, mas que, como se constata em contexto clínico, na sua grande maioria, longe de ajudar o nosso bebé a evoluir, vão ao invés prejudicar e atrasar o seu desenvolvimento.

Dediquemos alguns momentos a reflectir sobre o último modelo de espreguiçadeira com balanço automático e ecrã incorporado (pode ser qualquer modelo de que ser recorde, para o exemplo não interessam marcas ou formatos). Um dispositivo milagroso quando o nosso bebé chora incansavelmente! Só temos que depositar gentilmente na cadeirinha e ativar o mecanismo – simples assim – e como que por magia o bebé deixa de chorar…

Relativamente ao tal modelo de espreguiçadeira, são inegáveis os benefícios para os papás que irão ganhar uns minutos (ou talvez umas horas de descanso, se tiverem sorte), mas que benefícios retira o bebé desta inovação?… talvez deixe de chorar, mas a que preço?

Reportando-nos à atitude de recorrer à espreguiçadeira para conseguir minorar o choro, devemos ter consciência de que estamos a privar o bebé um privilégio de que nenhum bebé deveria ser privado: o de poder deleitar-se com colinho da mamã ou do papá enquanto se acalma.

No seu âmago, dar colinho é um estímulo claro objectivo para o bebé que o recebe: é o corpo presente do seu papá ou da sua mamã, o porto de abrigo que lhe dará transmite segurança e tranquilidade exclusivos da prerrogativa de se ser pai ou mãe.

A este propósito, Piaget, (Psicólogo Suíço cujo trabalho é mundialmente reconhecido pelo seu contributo para o conhecimento dos processos de desenvolvimento da criança), defende que durante os primeiros dois anos de vida do bebé, a sua inteligência é construída através do movimento e de experiências sensoriais. De acordo com este princípio, ao socorrermo-nos de um objecto como a espreguiçadeira, estamos não só a privar o bebé de treinar posturas e movimentos essenciais para o seu desenvolvimento (tais como são o alcançar objetos ou brinquedos), mas também de aprender por via  das experiências sensoriais que estes lhe podem proporcionar, através de ações tão simples como manipular, chupar, cheirar, lançar ou recolher.

Mas os malefícios podem não ficar por aí. Voltando ao tal modelo de espreguiçadeira com o ecrã digital topo de gama, constatamos que recorrer ao uso de ecrãs numa idade tão tenra pode contribuir para tornar a sua mente  do bebé mais letárgica, impondo um travão à construção da sua inteligência. Convém não esquecer que este confinamento à espreguiçadeira poderá (também) contribuir para aumentar o risco de plagiocefalia (achatamento da cabeça).

Em resumo: uma (aparente) escolha tão simples como uma espreguiçadeira pode dificultar o desenvolvimento do bebé, colocando-o em risco de padecer de problemas em idades mais avançadas. E este é apenas um de entre tantos outros comportamentos e escolhas… Juntemos a isto a utilização de produtos tais como andarilhos, parques, saltadores, assentos desajustados, centros de atividades, e outros que tais, que quando combinados com práticas inadequadas, como o forçar a posição sentada do bebé antes do tempo, o abuso da posição de barriga para cima, ou a evicção do tummy time, constituem não só uma barreira ao normal desenvolvimento da criança, como contribuem activamente para aumentar o risco do surgimento de patologia (ver lista abaixo).

Patologias e condições que podem resultar de estímulos inadequados na infância

  • Plagiocefalia;
  • Atrasos no desenvolvimento motor;
  • Problemas de Equilíbrio;
  • Deficits posturais;
  • Inadequado desenvolvimento de ancas, pernas e pés;
  • Alterações da coluna;
  • Dificuldades no controlo da motricidade fina (destreza manual);
  • Dificuldade de concentração e atenção;
  • Problemas de aprendizagem;
  • Torpeza nos movimentos (quedas frequentes);

Outros artigos a este respeito que lhe podem interessar:
Torcicolo Congénito em Bebés Recém-Nascidos
Posicionamento do Bebé

Perante isto, o que podemos fazer para apoiar de forma natural o desenvolvimento dos nossos bebés e mitigar estes e outros eventuais problemas?

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Potenciar o desenvolvimento do bebé escolhendo os estímulos adequados no momento certo

Para prevenir este tipo de problemas e exponenciar o potencial de desenvolvimento do bebé, contamos com evidência científica de qualidade, na qual nos podemos apoiar para edificar um modelo de desenvolvimento adequado.

No livro Ayúdale a despegar. Todo lo que tu bebé y tu hijo necesitan para un desarrollo sin límites, identificam-se os três pilares fundamentais na base dos principais estímulos aos quais a criança deve ser exposta durante os primeiros meses de vida. São eles o Tacto, o Movimento e o Tummy Time (o tempo passado de barriga para baixo).

Também na reputada base de dados de literatura científica Cochrane Library, constatamos a presença de diversos artigos de revisão sistemática destacando a importância do contacto pele a pele, ou chamando a atenção para a relevância do tummy time, no sentido em estas práticas contribuem não só para o desenvolvimento físico do bebé, mas também para o seu desenvolvimento cognitivo e mesmo para a prevenção de alterações psicomotoras.

A explicação é relativamente simples: quer o toque, quer o tempo passado em posição tummy time irão ajudar o bebé desenvolver uma maior consciência do seu corpo, facilitando o aperfeiçoamento de movimentos e posturas que em última análise resultarão na aquisição de competências não apenas ao nível do equilíbrio, mas também de outras funções posturais que constituirão a base essencial para a sua progressão para tarefas mais complexas, como explicaremos nos parágrafos seguintes.

Esta visão é partilhada por Quiros e Schrager, reputados autores na área do desenvolvimento infantil, que defendem que para realizar tarefas cognitivas mais complexas tais como o cálculo ou a leitura, é fundamental que durante os primeiros meses de vida a criança tenha sido capaz de automatizar eficientemente funções mais básicas como a postura, o equilíbrio ou a função óculo-manual (coordenação mão-olho). Os autores explicam que o cérebro dos bebés não surge completamente formado quando estes nascem, e segundo o Modelo do Grau de Neurodesenvolvimento, ele irá amadurecer “de baixo para cima”. Tal significa que num primeiro momento irão desenvolver-se e autonomizar-se funções básicas como o equilíbrio, a postura ou as respostas ao stress, e só então, a partir de esta correta construção do tronco cerebral e medula espinal, é que se começarão a construir de uma forma mais adequada as emoções ou funções mais complexas a nível cognitivo.

Também a este propósito, a referência ao exemplo do Fisioterapeuta e Docente Iñaki Pastor surge como apropriada: “imagine-se uma criança com problemas de leitura. Lê muito devagar, salta palavras e falta-lhe compreensão. (…) Se realizamos uma prova básica de equilíbrio a esta criança e constatarmos que tem sérias dificuldades para o manter, podemos compreender que o equilíbrio é uma função vital muito mais essencial do que a leitura. Não podemos fazer nada se não temos estabilidade, alguém que tenha sofrido uma vertigem ou tontura intensa poderá constatá-lo (traduzido do original)

O tacto, o movimento, os momentos de barriga para baixo proporcionados de forma correta e na altura adequada, irão ajudar o bebé a atingir mais facilmente os marcos motores e funções básicas de desenvolvimento neurológico (as tais funções de baixo de acordo com o Modelo do Grau de Neurodesenvolvimento referido acima), que por sua vez representam pilares essenciais no futuro desenvolvimento cognitivo e emocional destas crianças.

Finalmente, resta dizer que esta adequação de estímulos à etapa de desenvolvimento do bebé é relevante quer para bebés com patologia activa ou em risco patológico (como por exemplo nos casos de bebés prematuros), mas também nos casos de bebés sãos. É imprescindível escutar as opiniões dos especialistas qualificados em Pediatria, com conhecimentos atualizados sobre o desenvolvimento infantil, para que nos apoiem na tarefa de identificar as necessidades do bebé em cada momento, evitando dessa forma práticas prejudiciais que possam colocar em risco a construção motora, emocional e cognitiva.

Os primeiros meses são absolutamente essenciais para o futuro do bebé e as sessões de avaliação periódicas que ocorrem desde o nascimento, fundamentais para a detecção precoce alterações ao seu desenvolvimento.

Artigo redigido por Julia Panadero, Fisioterapeuta Especialista em Fisioterapia Infantil e Disfunção Mandibular, responsável pelas consultas de Motricidade do Bebé e Recém Nascido e Terapia Manual em Disfunção Temporo-Mandibular da Clínica Médica do Porto.

Referências Bibliográficas Consultadas
Moore ER, Anderson GC, Bergman N, Dowswell T. Early skin-to-skin contact for mothers and their healthy newborn infants.Cochrane Database Syst Rev. 2012 May 16;5:CD003519.
Wentz EE. Importance of Initiating a «Tummy Time» Intervention Early in Infants With Down Syndrome. Pediatr Phys Ther. 2017 Jan;29(1):68-75.
Zachry AH, Nolan VG, Hand SB, Klemm SA. Infant Positioning, Baby Gear Use, and Cranial Asymmetry. Matern Child Health J. 2017 Jul 19.
Pastor Pons, Iñaki, Acín y Rivera, Jara. ¡Ayudale a despegar!: Todo lo que tu bebé y tu hijo necesitan para un desarrollo sin limites. Editorial Aurum Volatile; 2018.
González Carlos. Bésame mucho. Editorial Espasa; 2012.
De Quiros JB, Schrager OL. Fundamentos neuropsicológicos en las discapacidades de aprendizaje. Editorial Médica Panamericana; 1996.
Photo by Anna Shvets and Polina Tankilevitch from Pexels Tanaphong Toochinda and Alyssa Stevenson on Unsplash

Data de Publicação: 03/2021

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