Imagem de menina com ar assustado olhando para baixo a segurar um peluche

Ansiedade Infantil: Quando a Preocupação Deve Ser Motivo de Atenção?

A ansiedade faz parte do desenvolvimento emocional de qualquer criança ou adolescente. Em diferentes fases da infância, é esperado que surjam medos, inseguranças ou preocupações. Estas reações, quando transitórias e adequadas à idade, têm uma função adaptativa importante.

O desafio surge quando a ansiedade se torna excessiva, persistente ou desproporcional face às situações vividas, impactando significativamente no bem-estar da criança, no desempenho escolar, no sono, na alimentação, nas relações familiares, na interação social ou nas atividades de vida diária.

Na infância, a ansiedade nem sempre é verbalizada de forma clara através de expressões como “estou ansioso” ou “tenho medo”. Frequentemente manifesta-se através de sinais emocionais, físicos e comportamentais, como irritabilidade, crises de choro, dificuldades de concentração, dores de barriga, dores de cabeça, alterações do sono, evitamento de determinadas situações ou maior dependência dos adultos. Por este motivo, nem sempre estes sinais são imediatamente reconhecidos pelos pais, cuidadores ou professores como manifestações de sofrimento emocional.

Neste artigo, abordamos as causas mais frequentes da ansiedade infantil e juvenil, os principais tipos de perturbações de ansiedade na infância e adolescência, os sinais de alerta a que os adultos devem estar atentos e algumas estratégias práticas que podem ajudar a promover a segurança emocional e o bem-estar das crianças no dia-a-dia.

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Ansiedade infantil: o que é e quais são as causas mais comuns

A ansiedade infantil corresponde a uma resposta emocional e fisiológica natural perante situações percecionadas como desafiantes, ameaçadoras ou imprevisíveis. Em níveis moderados, desempenha uma função adaptativa importante, contribuindo para que a criança desenvolva maior capacidade de atenção, antecipação e proteção face a potenciais riscos, bem como competências de adaptação a novas experiências e exigências do quotidiano.

Contudo, a ansiedade torna-se motivo de preocupação clínica quando a intensidade, frequência ou duração das manifestações excedem aquilo que seria expectável para a idade e contexto da criança. Deve merecer especial atenção quando persiste ao longo de semanas ou meses, com impacto significativo no funcionamento escolar, social ou familiar, comprometendo o sono e a alimentação.

As causas da ansiedade infantil são multifatoriais, resultando habitualmente da interação entre fatores biológicos, psicológicos, familiares e ambientais. Entre os fatores mais frequentemente associados encontram-se a predisposição genética, traços da personalidade – como maior sensibilidade emocional ou inibição comportamental -, experiências de stress ou instabilidade familiar, pressão académica e social, dificuldades relacionais, experiências traumáticas e ambientes marcados por elevada imprevisibilidade ou ansiedade parental.

A identificação precoce dos sinais de ansiedade é fundamental para prevenir o agravamento do sofrimento emocional e promover um desenvolvimento saudável. A validação emocional, o suporte familiar e, quando necessário, o acompanhamento psicológico especializado constituem elementos essenciais na compreensão e intervenção junto da criança e da família.

Causas Comuns de Ansiedade em Crianças e Adolescentes

A ansiedade na infância e adolescência é, habitualmente, multifatorial, resultando da interação entre fatores individuais, familiares, escolares e ambientais. Raramente existe uma causa única identificável, sendo mais frequente a combinação de diferentes vulnerabilidades e experiências ao longo do desenvolvimento.

Algumas crianças apresentam, desde cedo, características temperamentais associadas a maior sensibilidade emocional, tendência para preocupação excessiva ou maior reatividade perante situações novas, críticas, separações ou conflitos. Embora estas características não constituam, por si só, uma perturbação, podem aumentar a vulnerabilidade ao desenvolvimento de sintomas ansiosos, sobretudo em contextos marcados por elevada exigência, instabilidade ou dificuldade na gestão emocional.

A história familiar assume igualmente um papel relevante. A presença de ansiedade, depressão ou padrões persistentes de preocupação em familiares próximos pode contribuir para um maior risco de desenvolvimento de ansiedade na criança ou adolescente. Esta associação envolve não apenas fatores genéticos e biológicos, mas também aspetos relacionais e ambientais, nomeadamente através da observação e aprendizagem de formas de reagir ao stress e às adversidades.

O ambiente familiar e os acontecimentos de vida podem contribuir para o aumento da ansiedade, especialmente quando envolvem mudanças súbitas ou situações emocionalmente exigentes, como separação dos pais, luto, nascimento de um irmão, mudança de casa ou escola, doença na família, conflitos familiares, situações traumáticas ou experiências médicas difíceis.

O contexto escolar desempenha igualmente um papel central. Testes, apresentações orais, medo de errar, dificuldades de aprendizagem, conflitos com colegas, bullying ou receio de não corresponder às expectativas podem desencadear sintomas. Na adolescência, a pressão social, a comparação com os outros e a preocupação com a imagem podem intensificar este quadro.

Adicionalmente, fatores relacionados com o estilo de vida merecem particular atenção. A privação de sono, o excesso de estímulos digitais, a utilização excessiva de ecrãs e a ausência de rotinas consistentes podem comprometer a regulação emocional, aumentar a irritabilidade e dificultar a capacidade de concentração e gestão do stress, contribuindo para a manutenção ou agravamento dos sintomas de ansiedade.

Imagem de uma menina com os olhos tapados pelas mãos

Tipos de ansiedade comuns em crianças e adolescentes

A ansiedade pode manifestar-se de diferentes formas ao longo do desenvolvimento. A identificação precoce destes quadros mais comuns ajuda pais, cuidadores e profissionais a identificar os sinais e a procurar apoio quando necessário.

Ansiedade de Separação

A ansiedade de separação é particularmente frequente durante a infância, sobretudo nas fases iniciais do desenvolvimento, no entanto,pode persistir ou surgir com intensidade em idades mais avançadas. Pode manifestar-se através de:

  • Medo intenso de ficar longe dos pais (ou cuidadores);
  • Choro ou resistência na entrada da escola;
  • Dificuldade em dormir sozinho;
  • Preocupação excessiva com a possibilidade de algo acontecer aos pais;
  • Queixas físicas antes de separações, como dores de barriga ou náuseas.

Embora algum grau de ansiedade perante a separação seja esperado em determinadas fases do desenvolvimento, torna-se importante procurar avaliação especializada quando o sofrimento é intenso, persistente e interfere de forma significativa na rotina familiar, escolar ou social da criança.

Ansiedade Social

A ansiedade social caracteriza-se por um medo intenso e persistente de ser observado, avaliado, criticado ou humilhado em situações sociais. Este receio pode provocar elevado sofrimento emocional e levar a comportamentos de evitamento que interferem significativamente na vida escolar, social e familiar da criança ou adolescente. Pode surgir como:

  • Evitar apresentações orais;
  • Recusar festas, atividades de grupo ou convívios;
  • Medo de responder nas aulas;
  • Preocupação excessiva com o que os outros pensam;
  • Isolamento progressivo.

Ansiedade Generalizada

Na ansiedade generalizada, a criança ou adolescente preocupa-se de forma persistente com várias áreas da vida, mesmo não existindo uma ameaça concreta. Estas preocupações podem envolver:

  • A classificação escolar ou notas;
  • Questões de saúde;
  • A segurança dos pais;
  • Amizades;
  • Preocupação com o futuro;
  • O desempenho desportivo ou académico;
  • Medo de errar.

Pode existir também perfeccionismo, necessidade constante de afirmação, tensão muscular, cansaço, irritabilidade e dificuldade em adormecer.

Fobias Específicas

As fobias específicas são medos intensos e persistentes relacionados com objetos ou situações concretas. Podem incluir medo de:

  • Animais, como cães;
  • Agulhas;
  • Trovoadas;
  • Elevadores;
  • Medo do escuro;
  • Consultas médicas;

Aqui a principal característica que se destaca é o evitamento. A criança pode organizar grande parte do seu comportamento para fugir da situação temida.

Ataques de Pânico em crianças e adolescentes

Os ataques de pânico são episódios súbitos de medo intenso acompanhados de sintomas físicos marcantes. São mais frequentes na adolescência, embora também possam surgir em crianças. Os seus sintomas podem incluir:

  • Coração acelerado;
  • Falta de ar;
  • Tremores;
  • Tonturas;
  • Sensação de desmaio;
  • Aperto no peito;
  • Medo de perder o controlo;
  • Medo de morrer.

Estes sintomas podem ser muito assustadores e, por vezes, confundem-se com problemas físicos. Por esse motivo, devem ser avaliados por um profissional de saúde.

Ansiedade Relacionada com a Escola

A ansiedade escolar pode aparecer de várias formas. Nem sempre a criança diz claramente que tem medo da escola, mas há sintomas que indiciam este tipo de ansiedade:

  • Dores de barriga ou cabeça antes de sair de casa;
  • Crises de choro pela manhã;
  • Recusa em entrar na escola;
  • Absentismo;
  • Queda no rendimento;
  • Medo intenso de testes;
  • Dificuldade em lidar com professores ou colegas;
  • Agravamento dos sintomas ao domingo à noite ou antes de avaliações.

Nestes casos, é importante perceber o que está por trás da ansiedade: dificuldades de aprendizagem, bullying, conflitos, pressão académica, ansiedade social ou outra situação emocional.

imagem de um grupo de crianças numa sala de estudo em que uma delas se destaca pelo isolamento do grupo

Sinais de alerta: Quando a Ansiedade da Criança Interfere com o Desenvolvimento

Nem todos os medos ou preocupações são motivo de alarme. Na infância e adolescência, é natural existirem fases de maior intranquilidade. O sinal de alerta surge quando a ansiedade deixa de ser pontual, se torna frequente e começa a interferir com a rotina, a autonomia, a aprendizagem ou o bem-estar emocional.

Nestes casos, a criança pode começar a organizar o seu dia em torno daquilo que teme: apresentações, testes, trabalhos de grupo, festas, atividades extracurriculares, dormir fora de casa ou situações novas. Pode também apresentar queixas físicas recorrentes, como dores de barriga, dores de cabeça, náuseas, cansaço ou dificuldade em dormir, sobretudo antes de momentos que antecipa como exigentes.

Em contexto escolar, algumas crianças tornam-se mais caladas, inseguras ou dependentes da confirmação dos adultos; outras mostram irritabilidade, choro fácil, crises pela manhã, recusa em entrar na escola ou queda progressiva no rendimento.

Com o tempo, esta evicção reduz oportunidades importantes de crescimento, aprendizagem e confiança. A criança pode começar a evitar precisamente as situações que a ajudariam a ganhar autonomia: fazer perguntas, participar em grupo, tentar atividades novas, resolver conflitos ou apresentar trabalhos.

imagem de um adolescente com a cabeça cabisbaixa escondida entre as mãos

Estratégias para pais e cuidadores: Como agir e Quando Procurar ajuda?

O papel dos pais e dos cuidadores é fundamental. A forma como os adultos respondem à ansiedade pode ajudar a criança a sentir-se compreendida e mais capaz de enfrentar gradualmente aquilo que teme.

Validar sem alimentar o medo

Evite frases como: Isso não é nada; Não tens razão para estar assim; Estás a exagerar; Tens de ser forte. Podem fazer a criança sentir-se incompreendida ou envergonhada. Em alternativa, pode dizer: Percebo que isto te assuste; Estou aqui contigo; Podemos pensar num primeiro passo mais pequeno.

Validar não significa concordar com o medo. Significa reconhecer que a emoção é real.

Evitar a proteger excessivamente

É natural querer proteger (e afastar) a criança de tudo o que lhe causa sofrimento. Porém, quando essa passa a ser a principal resposta, a ansiedade tende a manter-se. O objetivo não é forçar bruscamente, mas ajudar a enfrentar as situações temidas de forma gradual, segura e acompanhada.

Dividir os desafios em passos pequenos

Em alguns casos, pode ser útil dividir os desafios em etapas pequenas. Perante ansiedade escolar, por exemplo, pode começar-se por falar sobre o que mais assusta, combinar uma entrada acompanhada e aumentar progressivamente o tempo de permanência na escola. Pequenos progressos consistentes são geralmente mais eficazes do que confrontos repentinos

Criar rotinas previsíveis

A previsibilidade ajuda muitas crianças ansiosas a sentirem maior segurança. Horários regulares de sono, uma rotina matinal simples, tempo definido para estudo, momentos de pausa, refeições organizadas e redução de ecrãs antes de dormir podem reduzir fatores que agravam a ansiedade.

Ensinar estratégias simples de regulação

Respirar lentamente, nomear a emoção, desenhar ou escrever uma preocupação, caminhar, escutar música calma ou usar frases como “posso tentar um passo de cada vez” são formas simples de ajudar a criança a acalmar o corpo e organizar pensamentos. Idealmente, devem ser treinadas em momentos calmos, e não apenas durante uma crise.

Falar com a escola

Quando a ansiedade interfere com o contexto escolar, é importante falar com professores, psicólogos escolares ou direção de turma. Esta articulação pode ajudar a perceber se existem conflitos, bullying, dificuldades de aprendizagem, pressão excessiva ou outras situações que estejam a contribuir para o problema.

Evitar comparações

Frases como o teu irmão consegue, os teus colegas não fazem isso ou na tua idade eu não era assim tendem a aumentar vergonha e insegurança. A comparação raramente motiva uma criança ansiosa e pode reforçar a ideia de que há algo errado consigo.

Procurar ajuda profissional

Deve considerar procurar ajuda especializada quando a ansiedade dura várias semanas ou meses, interfere com a escola, provoca recusa escolar, afeta o sono ou a alimentação, leva ao isolamento, causa ataques de pânico, gera grande desgaste familiar, limita atividades importantes ou está associada a tristeza profunda, automutilação ou ideias de morte.

Em caso de risco de autoagressão, comportamento perigoso ou pensamentos suicidas, deve procurar ajuda urgente através dos serviços de emergência ou de uma unidade de saúde.

imagem de uma criança sentada no chão, com a cabeça cabisbaixa escondida entre os ombros

Tratamento da ansiedade em crianças e adolescentes

As estratégias de tratamento devem ser adaptadas à idade, à intensidade dos sintomas, ao contexto familiar e ao impacto na vida diária, considerando também outras dificuldades, como depressão, alterações do sono, dificuldades de aprendizagem ou perturbações do neurodesenvolvimento.

Contextualização e educação sobre a Ansiedade

Compreender o que é a ansiedade ajuda a criança e a família a interpretar melhor os sintomas e a encontrar respostas mais adequadas. Muitas crianças sentem alívio quando percebem que sinais como coração acelerado, dores de barriga, falta de ar ou tensão muscular podem fazer parte de uma resposta do corpo à ansiedade.

Psicoterapia

A terapia cognitivo-comportamental é uma das abordagens com maior evidência no tratamento das perturbações de ansiedade em crianças e adolescentes. Pode ajudar a identificar pensamentos ansiosos, reduzir o seu impacto e treinar formas graduais de enfrentar situações mais temidas.

Envolvimento dos pais

O acompanhamento dos pais é essencial. Os cuidadores podem aprender formas de responder à ansiedade sem a reforçar, apoiar exposições graduais e criar rotinas mais protetoras. Este envolvimento deve ser ajustado à idade e autonomia da criança ou adolescente.

Articulação com a escola

Quando a ansiedade tem impacto escolar, pode ser importante envolver a escola no plano de intervenção. Tal não significa baixar a exigência académica, mas sim criar condições para que a criança recupere confiança e participação.

Avaliação médica e medicação

Em alguns casos, pode ser necessária avaliação médica, sobretudo quando os sintomas são moderados a graves, persistentes ou incapacitantes, ou quando existem ataques de pânico, depressão associada ou grande interferência funcional. A medicação não é a primeira opção para todas as crianças, mas pode ser considerada em situações específicas e sempre com avaliação médica individualizada

Considerações Finais acerca da Ansiedade em Crianças e Adolescentes

A ansiedade em crianças e adolescentes é comum, mas não deve ser desvalorizada quando interfere com a vida familiar, escolar ou social. Identificar sinais precoces permite intervir antes que a insegurança e o sofrimento se tornem mais difíceis de gerir.

Com apoio adequado, envolvimento dos pais, articulação com a escola e o devido acompanhamento profissional, quando necessário, muitas crianças e adolescentes conseguem desenvolver estratégias para lidar melhor com os seus medos, recuperar autonomia e melhorar o bem-estar emocional.

O presente artigo foi redigido pela Dra. Joana Fonseca, Psicóloga Clínica com diferenciação em Psicologia da Infância e Adolescência.

Aviso Importante

Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação por um profissional de saúde qualificado. A ansiedade em crianças e adolescentes deve ser avaliada de forma individualizada, considerando a idade, o contexto familiar, escolar e clínico. Em caso de sofrimento intenso, risco de autoagressão ou comportamento perigoso, deve procurar ajuda urgente.

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Data de Publicação: 05/2026

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